Quem conhece o filme "O homem nu", baseado no conto de Fernando Sabino, deve imaginar o sufoco que é viver uma situação desse tipo. Agora, imaginem uma mulher vivendo esse drama na vida a real! Eu pude presenciar e vou contar pra vocês como tudo aconteceu:
Naquela tarde, dirigia apressada, era o primeiro dia da exposição de artes no
Centro de Convenções de Salvador, e precisava chegar mais cedo para abrir o
stand de pintura em porcelana: Era o meu hobby do momento.
Vinha de Lauro de Freitas, e naquela época o trânsito era tranquilo, o fluxo de carros pequeno, e na segunda
rótula do aeroporto ainda não existiam os viadutos e as vias de acesso para
alguns pontos da cidade.
Havia um matagal enorme bem em frente ao aeroporto e, foi
exatamente ali, naquele lugar ermo, onde a qualquer hora do dia podia-se ver
meninas a espera de clientes dispostos a pagar por um programa sexual, que eu avistei aquela figura
alva, cabelos negros, aparentando uns 27
anos, trajando apenas uma calcinha e uma bolsa acobertando os seios.
Me chamou atenção o seu comportamento. Ela chorava e gritava muito, acenando para os
motoristas que passavam indiferentes ao
seu desespero.
Senti uma enorme vontade de ajudá-la, mas exitei, diante da possibilidade de ser uma armadilha
de assaltantes. Mesmo assim, reduzi a velocidade e parei uns cem metros a sua
frente e fiquei observando pelo retrovisor.
Notei que as únicas
pessoas que passavam por ali, era um senhor idoso e uma criança em trajes bem humildes. Aos gritos e muito choro, ela pedia
ajuda aos dois, não conseguia balbuciar uma
única palavra.
Foi nesse momento que cheguei à conclusão de que ela tinha sido vítima de assalto. O idoso continuou o seu caminho, pareceu não entender nada, e eu decidi ajudá-la. Olhei cuidadosamente pra ver se não havia mais ninguém por
ali, e voltei até onde ela estava.
Quando parei o carro,
tive a sensação que estava jogando uma boia para um sobrevivente de naufrágio.
Ela entrou com tudo no carro, sem me olhar nem dizer nada, só chorava copiosamente!
Continuei dirigindo, tentando saber o que aconteceu e procurei acalmá-la. Estava muito nervosa e continuava sem dizer nada, só chorava. Por alguns minutos
fiquei sem saber o que fazer diante daquela situação, estava longe de casa e precisava chegar ao
Centro de Convenções o mais rápido possível.
Nesse momento, lembrei de minha irmã que morava em Itapoan e liguei prá
saber se havia alguém em casa, felizmente ela atendeu e eu expliquei o que havia
ocorrido.
Passei o meu celular pra moça , e pedi que digitasse o número de
alguém que pudesse ir ao seu encontro, pois eu ia deixá-la com minha irmã.
Um homem atendeu a ligação e
sugeriu que eu a levasse até a
delegacia (ele era delegado). Expliquei que ela estava praticamente despida e ele concordou em ir ao
nosso encontro.
Quando cheguei em Itapoan, minha irmã que é uma pessoa super
acolhedora, já estava na porta, nos
aguardando com um roupão e um copo de água na mão.
Nunca esqueci a reação daquela moça quando saiu de dentro do
carro e se vestiu. Era uma outra
pessoa, o mundo voltou a ser seu! Começou a falar , a sorrir, ficou muito a vontade a partir daquele momento. Como eu precisava ir embora e tinha certeza que ela
estava em boas mãos, me despedi e pedi que ficasse bem. Ela me agradeceu,
eu segui o meu caminho.
Depois que deixei a casa da minha irmã, bateu a preocupação!
Sabe essas coisas de quem vive em grandes cidades e só pensa no pior? Pois bem, não
pensava em outra coisa, minha irmã sozinha em casa, com aquela estranha, e ainda ia
aparecer uma outra pessoa... Seria aquilo um plano de assalto? De minuto em
minuto ligava pra saber se estava tudo bem, até que o tal delegado da polícia
federal apareceu e a levou.
Tudo resolvido, consegui relaxar e saber o que realmente
aconteceu. E para minha surpresa, ela não tinha sido vítima de assalto coisa
nenhuma. Disse que pela manhã depois de
deixar o filho na escola , no bairro da Graça, foi abordada por uma mulher e
dois homens que a jogaram dentro de um
carro e disseram-lhe que ela ia saber o que acontecia com mulher que se mete com homem casado. Passaram horas andando de carro e fazendo
tortura psicológica, até deixá-la naquele ponto onde a encontrei, naquele estado deplorável. De acordo com o seu relato, ela era namorada do delegado e
ele já havia se separado da mulher.
Em resumo, tudo não passou de vingança de uma mulher
enciumada.
Verdade ou não, só sei que levei uma bronca do meu marido e de
alguns amigos, pelo risco que corri. Mas não me arrependo não, quando lembro o
semblante de alívio daquela moça quando vestiu o roupão, penso que sempre vale
a pena se colocar no lugar do outro e tentar ajudar, lembrando sempre que nos
dias de hoje, todo cuidado é pouco!
Rosa